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Em vários momentos, foi-me difícil explicar como é que a minha cabeça funciona, o que me motiva e o que me faz ficar parada horas a fio sem começar uma tarefa. Nunca me senti sozinha: quando finalmente conseguia pôr em palavras o que sentia, muitas pessoas identificavam-se. Só mais tarde percebi que o fator comum tinha um nome: Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA).
Para mim é como se estivesse constantemente a fazer trabalhos de grupo com alguém extremamente distraído.
Eu estou motivada, anoto todas as indicações dadas, pesquiso artigos pertinentes, tenho ideias que considero pertinentes,… Quero fazer um trabalho brilhante e esforço-me para isso. Mas ao mesmo tempo tenho uma “colega” na minha cabeça que me desorganiza. Ela perde apontamentos, adia começar as tarefas, não tem gestão de tempo e distrai-se constantemente.
Durante muito tempo, senti que isto era profundamente injusto. No final, o resultado é sempre avaliado como um todo. E eu sentia que o meu esforço não era reconhecido, porque também estavam visíveis os atrasos e a procrastinação que vinham dessa “outra parte”.
Achava que “eu” e “ela” não devíamos ser vistas em conjunto.
Por exemplo, no secundário eu obtive uma média de 19 enquanto conciliava os estudos com um desporto federado e clubes escolares, enquanto isso ela chegava atrasada aos testes e frequentemente tinha faltas de material.
Eu fazia todos os trabalhos de casa e ela esquecia-se de jantar. Eu fazia listas de tarefas e ela nunca sabia o que tinha para fazer.
Eu era “inteligente” e “trabalhadora”, enquanto ela era “preguiçosa” e “sem disciplina”.
Durante muito tempo, achei que estas duas partes não deviam ser vistas em conjunto, como se uma anulasse a outra. Até perceber que não existe essa separação: não há um “eu” e uma “ela”. Há apenas a forma como o meu cérebro funciona.
Aprender a viver com PHDA passa por aceitar isso. Não se trata de separar ou eliminar uma parte, mas de compreender esse funcionamento e encontrar formas de gerir a frustração que vem com ele.
Com o tempo percebi que o défice de atenção não é apenas não conseguir focar-me. Às vezes é exatamente o oposto: não conseguir “desfocar” (hiperfoco). É ficar tão concentrada numa única tarefa durante horas que deixo de ter noção do tempo e apercebo-me demasiado tarde de que já deveria ter saído de casa para outro compromisso, que ainda não comi ou que nem sequer tomei banho. É adormecer no chão enquanto estudava uma cadeira que deveria ter sido apenas uma revisão leve, para depois me focar noutra que era mais urgente, mas nunca cheguei a sair da primeira. É fazer listas de tarefas e, ainda assim, não saber priorizar, o que resulta em nem começar.
Percebi, então, que o “eu” e a “ela” são apenas duas faces da mesma moeda. Durante muito tempo, escolhi identificar-me apenas com as características valorizadas e afastar-me daquelas que são menos compreendidas. Hoje, entendo que fazem todas parte de mim.
A Estudante
Testemunho recolhido pelo Serviço de Desenvolvimento e Carreira da Faculdade de Economia da Universidade do Porto

