Ter PHDA é como ver televisão enquanto alguém indeciso tem o comando.

 

Foi assim que expliquei aos meus pais, e que agora vos explico. Sempre ouvi dizer que quem tem PHDA tem “défice de atenção”, mas rapidamente percebi que não se tratava de ter pouca atenção — tratava-se de não a conseguir controlar. É como estar a ver televisão enquanto alguém indeciso tem o comando: muda de canal sem avisar, contra a minha vontade, por tempo indeterminado e sem perguntar se estou a acompanhar.

 

Quando entrei na faculdade, isto ficou ainda mais evidente. As aulas eram muito longas, com muita gente; tinha muita dificuldade em manter-me atento. Estes lapsos acumulavam-se até eu deixar de conseguir seguir a explicação. Quando começaram as avaliações, as notas foram mais baixas do que alguma vez tinha tido. Eu esforçava-me e queria concentrar-me, mas não conseguia.

 

Foi aí que fui buscar um parecer de uma psicóloga que me tinha diagnosticado PHDA antes de entrar na faculdade. Este parecer deu-me acesso a mais tempo para a realização dos exames, mas esse tempo extra não era suficiente para compensar o tempo que perdia distraído tanto com pensamentos não relacionados com o exame como com qualquer coisa que apanhasse a minha atenção na sala: uma caneta a cair no chão, a luz do sol a entrar na sala ou os professores a conversar ao fundo. Tinha, e tenho, muita dificuldade em focar-me durante um exame, e a dificuldade é ainda maior quando tento estudar, especialmente fora da época de exames.

 

No entanto, se estiver a fazer um projeto que me cative, consigo estar tão concentrado que até me esqueço de comer; contudo, por muito que tente, sou incapaz de escolher o alvo desta concentração. E como nem tudo o que temos de estudar na faculdade me consegue cativar — pelos métodos ou pelo conteúdo — a dificuldade é mesmo muito grande.

 

Perante tudo isto, procurei um médico. O diagnóstico de PHDA foi confirmado e comecei a tomar medicação. Achei que seria “a peça que faltava”, porque muitos descrevem melhorias logo nos primeiros dias. No meu caso, não foi assim tão simples. A medicação ajuda, sim, mas trouxe também desafios que não imaginava.

 

A atenção é só parte da história. Há outras dificuldades que quase ninguém vê: o impacto da medicação, a dificuldade na gestão do tempo, no planeamento e a luta diária para transformar intenção em ação.

 

Sobre essa parte — que muitas vezes pesa tanto ou mais do que a atenção — falo-vos melhor na próxima carta.

 

O Estudante

 

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Para mais informação sobre como é viver com PHDA: