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Estratégias na universidade

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Durante o secundário, ouvi várias vezes que a universidade seria muito diferente: mais exigente, com um ritmo mais acelerado e menos acompanhamento, “ninguém vai andar em cima de ti” disse-me o meu pai. Apesar de os ter ouvido, não sinto que estivesse preparada para a mudança que realmente ia ser.

Tive de me adaptar a um contexto de ensino com menos estímulos e menos ferramentas de apoio a uma condição que, durante o ensino obrigatório, nem sequer sabia que tinha. A diferença foi significativa, mas também trouxe uma vantagem importante: com o diagnóstico, passei a conseguir procurar ajuda mais adequada e, em vez de recorrer a dicas de estudo genéricas, comecei a procurar estratégias específicas para estudantes com PHDA.

Também foi no ensino superior que percebi a importância das perguntas retóricas que os professores lançam durante a aula. Se estiver distraída, essa mudança súbita de tom, essa quebra numa sequência monótona, faz-me recuperar o foco. A pausa enquanto os alunos refletem dá-me tempo para avançar os slides até encontrar o ponto em que o professor está e a explicação que se segue é exatamente o que preciso para voltar a pegar na caneta e escrever.

As aulas de que mais gosto são dadas por docentes que mantêm uma estrutura previsível. A previsibilidade não me limita, organiza-me.

Por vezes ajuda-me que os próprios professores sejam a “distração”: os gestos com as mãos, a forma como se movimentam pela sala. Pequenos detalhes fazem diferença. Tenho um professor que anda pela sala enquanto explica e começa frequentemente as frases com “turma!”, num tom alto e chamativo. O meu cérebro já associou esse vocativo a um sinal claro: “Agora foca. Ele vai repetir a ideia de forma mais concisa e direta.”

Além das estratégias práticas, há um fator que faz uma diferença gigantesca: a compreensão. Saber que quem está do outro lado sabe que não estou a ser “preguiçosa”, “indisciplinada” ou que deixei de ouvir, não por desrespeito, mas porque de repente me apercebi que há uma batida rítmica no outro canto da sala. O maior apoio é sentir-me compreendida e que as pessoas me dão tempo para voltar a depositar a minha atenção no tópico que querem abordar.

O que verdadeiramente me ajuda é ser descrita como “inteligente, ambiciosa, trabalhadora” mesmo que venha acompanhada por um “tem PHDA” em vez de “preguiçosa e com falta de disciplina”. Porque a minha neurodiversidade não me limita tanto quanto o facto de o sistema de educação não ser feito com pessoas “diferentes” serem a norma nem me desmotiva tanto quanto o vocabulário daqueles que me rodeiam.

Talvez seja altura de nos questionarmos se ser neurodivergente não será mais comum do que pensamos. E se adaptar o ensino a quem tem mais dificuldades beneficiará todos, inclusive aqueles que já se encaixam nos moldes atuais.

A Estudante

Testemunho recolhido pelo Serviço de Desenvolvimento e Carreira da Faculdade de Economia da Universidade do Porto

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